Quando a comida vira discurso: usos da história, políticas públicas nacionais e educação alimentar e nutricional no Brasil (2012-2025)
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Universidade Estadual de Ponta Grossa
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Esta dissertação investigou os usos da história na educação alimentar e nutricional
(EAN) no Brasil a partir do Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional
para as Políticas Públicas (2012). O estudo partiu da compreensão de que além de
uma prática material, a alimentação é também cultura, linguagem e discurso,
conforme a perspectiva proposta por Massimo Montanari (2013). Ao problematizar a
relação entre cultura alimentar, políticas públicas e construções narrativas, a pesquisa
inscreveu-se no campo interdisciplinar dos estudos da alimentação, articulando
contribuições da didática da história e da análise do discurso. No primeiro capítulo, o
Marco foi tomado como um documento paradigmático, revelando tanto avanços, ao
consolidar a EAN como política pública nacional, quanto limites, especialmente no
trato da historicidade e nos diálogos com as ciências humanas e sociais. A análise
crítico-reflexiva indicou a predominância das narrativas exemplares e do discurso
técnico-biológico da alimentação, que tangenciou o debate, nos termos de Gyorgy
Scrinis (2021), sobre a presença ou ausência de reducionismos nutricionais nas
políticas públicas analisadas. A história foi, por vezes, mobilizada de modo
fragmentado e instrumental, gerando silenciamentos e contradições que demandaram
problematizações à luz dos mecanismos de apropriação do passado como ferramenta
de orientação cultural. Os capítulos II e III desenvolveram-se a partir do “histórico
nacional de educação alimentar e nutricional”, presente no Marco, que serviu de base
para uma série de desdobramentos. O segundo capítulo perpassou a história da
educação alimentar no Brasil entre 1930 e 1986, revisitando a relação entre
industrialização, globalização e políticas públicas. Evidenciaram-se a centralidade do
corpo e da comida como campos de intervenção no Estado Novo; a atuação intelectual
e política de Josué de Castro, que vinculou fome e desigualdade social; e a
instrumentalização da alimentação durante a ditadura militar brasileira. O período de
redemocratização revelou tensões entre permanências do paradigma nutricional e a
emergência de novas perspectivas, a partir do livreto Alimentação e Saúde (1986). O
terceiro capítulo abordou o período de 1990 a 2012, enfatizando a emergência da
cultura alimentar como dimensão das políticas de segurança alimentar e nutricional.
Do lançamento da Política Nacional de Alimentação e Nutrição (1999) ao Guia
Alimentar para a População Brasileira (2006), passando pelas Conferências Nacionais
de Segurança Alimentar e Nutricional (1995; 2004; 2007; 2011; 2015; 2023) e pela
consolidação da EAN como política pública, notou-se um processo marcado por
rupturas e descontinuidades. A investigação mostrou como, apesar de conquistas
significativas, persistem contradições na efetivação da EAN, sobretudo diante da
hegemonia do nutricionismo e da dificuldade em incorporar plenamente a cultura
alimentar como núcleo estruturante. Defendemos, portanto, que a história da
alimentação não deve ser tratada como adorno ilustrativo, mas como dimensão
constitutiva da EAN. Assim, reivindicamos o papel das ciências humanas na
construção de políticas alimentares mais coerentes e transformadoras, capazes de
enfrentar os desafios contemporâneos e de valorizar a história e cultura alimentar
como princípios educativos.
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Citation
MARIANI, Filipe Henrique. Quando a comida vira discurso: usos da história, políticas públicas nacionais e educação alimentar e nutricional (2012-2025). 2026. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2026.
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